Ciúmes: lindo pra quem vê, agoniante pra quem sente.
(vía apenasumadolescente)
Já falei “Descer pra baixo” ao envés de “Descer “
A educação é precária, a saúde nem se fala, segurança é quase inexistente. Mas chega em dia de futebol, você vê pessoas pedindo pro Brasil não as envergonharem. NÃO TEM NADA ERRADO AI NÃO?
(vía desapegar-se)
A luz fraca do abajur na cabeceira da cama era o suficiente para iluminar as páginas amareladas de meu pequeno diário empoeirado dentro do baú. Há muito decidira deixá-lo ali, prisioneiro da escuridão, para jamais libertá-lo. Mas esta era uma daquelas noites. Essas madrugadas, tão frias e tristes, tão intensas e maldosas, pouco eram comentadas, porém eram muito conhecidas. Noites como esta dilaceram o coração dos solitários e angustiam a saudade dos ausentes. De um pequenino grão de poeira nascia a tristeza, e a multiplicava até nada haver pela casa além de grãos, abrindo cicatrizes esquecidas nos confins do pretérito. O pouco transformava-se em muito. Onde não havia nada, pesava, pesava e pesava, até as pernas fraquejarem e os joelhos baterem com força no chão. E ali permanecia até ter nos braços os desenho do piso, os cabelos escondendo o rosto, a incapacidade de transbordar a angústia pelos olhos e livrar-me daquela dor aguda dentro do peito.
Esta era uma daquelas noites. Repetia uma, duas, três vezes. Vasculhava razões para abrir o diário que continha toda a dor do mundo, talvez um pouco de outros. Reler um diário é como entrar em uma máquina do tempo capaz de trazer todas as sensações com o gosto amargo do arrependimento. Com o resquício de coragem que permanecia, abri. Na primeira página, havia o desenho de um sorriso. “Excitada estou por começar esse relato de todas as aventuras futuras que viverei”, escrevera em letra de mão com tinta vermelha. Lembro-me bem de minha mania. Quando feliz, escrevia em tinta vermelha e letras grandes - essa era minha forma de gritar ao mundo alegria. Quando triste, tinta negra com letras pequeninas, tentando esconder do papel aquilo que lhe confidenciava. Essa era minha maneira de comunicar-me em segredo com quem quer que fosse. Sentia que, assim, era justa, dando a chance de me decifrarem. Ninguém nunca conseguiu tal proeza. Após as quinze primeiras folhas, todas - sem exceção - estavam escritas com tinta escura.
Apertei o caderno entre os dedos uma última vez, e mergulhei no mundo que tanto lutara para fugir. Senti o cheiro do campo após o temporal. Corri com os pés descalços pelos portões de minha antiga casa, só para ver aquela antiga paixão de menina passar. As bochechas pintaram-se em tom rosado quando o moço, nitidamente lisonjeado, acenou-me do outro lado da rua, e acenei de volta. Gestos devolvidos raramente apareciam entre aquele embaralhado de palavras, fotografias e desenhos. “Lhe devolvi o aceno, porém não fora o suficiente para devolver-me o coração”, li devagar, degustando cada letra, acento e grafia. No canto da folha, a marca de uma lágrima gritava por atenção, levando-me para o exato momento em que escrevi as amargas palavras. Doeu-me como na primeira vez. Pulei para a última página do diário, ainda em branco, razão desconhecida por mim, que tanto escrevera ali. Procurei pelo quarto caneta na cor azul - ainda em análise sobre o significado -, e escrevi da melhor forma que encontrei: “Não existe fim. Mesmo se pintarmos um ponto final na frase, não termina. Permanece, prossegue nas entrelinhas. Até o mais antigo dos sentimentos, quando relembrado, desperta, sente-se esperançoso, nos dói. E mesmo assim, o fazemos. Relembramos, revivemos. Abrimos diários e sentimos odores, paladares, polegares, apertos. Escancaramos o coração para sentir a nostalgia alegrando-nos, apesar da certeza do final sombrio. Porque o vazio nos rasga. E sentir dor é absolutamente mais agradável do que a angústia de nada sentir”.
Gabriela Santarosa
(vía desapegar-se)
(vía mon-amour-cheri)



